Pagar para não gerar energia, e a Europa trocando de dono
Sobre o governo americano pagando para cancelar projetos de vento enquanto a guerra engorda o lucro do petróleo, e sobre o capital americano comprando empresa europeia barata.
Pagar uma empresa de energia para não construir usina é política de preço com outro nome. Nesta semana o governo americano acertou US$ 1,2 bilhão com a alemã RWE para cancelar projetos de energia eólica nos Estados Unidos, enquanto a BP mais que dobrou o lucro e as grandes petrolíferas fecharam um trimestre gordo com o petróleo empurrado pelo conflito entre Estados Unidos e Irã. Minha leitura é que os dois fatos são o mesmo fato. Tirar oferta futura de eletricidade num momento em que o consumo dos data centers de inteligência artificial só cresce sustenta o preço da energia por mais tempo, e energia cara entra na sua vida por dois caminhos: a conta de luz e o custo de transportar tudo o que você compra.
Você deve estar pensando: contrato de energia nos Estados Unidos não muda a minha vida. Sozinho, não muda mesmo. Mas inflação de energia é a que o banco central menos consegue combater com juro, porque ela vem da oferta, e por isso costuma virar juro alto por mais tempo em vez de juro alto por pouco tempo. É esse prazo, e não o susto de um mês, que define o preço do que você tem em renda fixa e em ações. Na mesma semana a Total comprou os ativos eólicos e solares da Shell na Europa, e a transição energética passou a caber em menos mãos.
A segunda história é de dono. A easyJet aceitou uma oferta de compra de € 6,6 bilhões da Apollo, gestora americana de private equity, a Diageo anunciou um corte de custos de US$ 1 bilhão e projetou crescimento de dígito único baixo até 2029, bem abaixo da antiga meta de 5% a 7% que já havia abandonado em 2025 (uma forma criativa de bater a meta), os maiores acionistas da Volkswagen cobraram medidas urgentes de competitividade, e a França derrubou de 25% para 10% a fatia a partir da qual a compra estrangeira de uma empresa sensível precisa de aval do governo. Ativo europeu barato não vira ativo caro sozinho. Vira ativo de outro dono.
Quem tem bolsa europeia carrega duas apostas no mesmo papel: a empresa melhorar e alguém de fora achar barato o suficiente para comprar. Nos próximos meses, a segunda depende mais do euro contra o dólar do que de qualquer balanço trimestral.
O iene defendido sem vender um título americano
Sobre a intervenção conjunta de Estados Unidos e Japão no câmbio, o que ela encarece para quem investe fora, e o que a venda de ouro da Rússia revela sobre acesso a mercado.
Estados Unidos e Japão intervieram juntos no câmbio para segurar o iene, e o desenho da operação importa mais do que o gesto: Tóquio defendeu a moeda sem vender um único título do Tesouro americano, e os dois lados avisaram que repetem se for preciso. Quando o Japão obtém dólares vendendo reserva em título americano, ele empurra o juro dos Estados Unidos para cima e encarece o dinheiro no mundo inteiro. Dessa vez o mercado que ancora o preço de todo o resto ficou intocado. Intervenção sem efeito colateral global é coisa rara.
O custo apareceu em outro lugar. Iene defendido é iene mais caro, e iene mais caro encarece o carry trade, ou seja, tomar emprestado onde o juro é baixo, no Japão há duas décadas, para aplicar onde paga mais. Esse dinheiro barato financia parte do que existe dentro de fundos de mercados emergentes e de crédito. Se o custo de tomar emprestado sobe, o gestor reduz posição, e a venda cai justamente em moeda emergente e título local. A dúvida óbvia é essa: o Japão é o mercado mais previsível do mundo, por que isso viraria problema agora? Faz sentido, e é exatamente por ser previsível que tanta gente montou posição em cima dele. Previsibilidade só é barata enquanto ninguém precisa defendê-la.
Do outro lado do tabuleiro, a Rússia se tornou uma das maiores vendedoras de ouro do mundo em 12 meses, para cobrir gastos do orçamento. Ouro é o ativo de reserva que um país vende quando não consegue vender dívida. O que eu observo aqui não é o motivo declarado, é a ordem: vende-se ouro primeiro, dívida depois, e isso diz qual porta ainda está aberta para Moscou e qual está fechada. Não é sinal de crise iminente, é sinal de acesso. E ouro vendido em volume é oferta a mais no mesmo metal que muita gente compra como proteção.
Se parte da sua poupança está fora da moeda em que você gasta, o que está em jogo é quanto do seu resultado vem do câmbio e não do ativo. Nos próximos meses, quem responde isso é a segunda operação conjunta: se ela vem, e de que tamanho.
Jurisdição, prêmio de risco e o que ainda não foi testado
O que acompanhar adiante: o teste do mecanismo fiscal de Malta, o Oriente Médio como o item que mais pesa, e os pontos menores na Ibéria e nas fronteiras europeias.
Empresa e pessoa fazem a mesma arbitragem, só com nomes diferentes. O caso da Crocs e de outras americanas em Malta mostra o mecanismo: paga-se o imposto local e devolve-se boa parte por reembolso, o que derruba a alíquota efetiva, aquela que sobra depois de crédito e devolução, e não a que vira manchete. O que eu acompanho daqui para frente é se alguém testa esse desenho contra o imposto mínimo global de 15%. Enquanto ninguém testa, ele vale.
O item que mais pesa nas próximas semanas, na minha leitura, é o Oriente Médio. Israel atacou o sul do Líbano e Gaza poucos dias depois de o Hamas aceitar o desarmamento, e ataques houthi mataram pelo menos 30 militares do governo iemenita. Prêmio de risco se desmonta bem mais devagar do que manchete: se os ataques continuarem, o petróleo sustenta o patamar e inflação, juro e lucro de petrolífera se resolvem todos por esse mesmo canal; se pararem de verdade, o prêmio sai aos poucos, não de uma vez. No mesmo tabuleiro, o pacto de defesa entre Arábia Saudita, Turquia e Paquistão coloca uma garantia nuclear por trás da infraestrutura de energia do Golfo, o que muda o cálculo de quem precificava ataque a refinaria.
Depois disso, dois pontos menores. Na Ibéria, o preço do imóvel usado na Espanha subiu 16,2% em 12 meses (Euronews) e o preço médio pedido em Portugal chegou a € 430.500, com o comprador estrangeiro formando o preço na margem, o que faz da entrada uma decisão de câmbio antes de ser uma decisão de imóvel. E a Espanha respondeu à Itália com controle de fronteira, transformando um choque migratório em escalada recíproca.
Para quem escolhe jurisdição, empresa ou pessoa, o que fica em aberto é quanto do ganho depende de uma regra que ninguém contestou ainda. Quem tira essa dúvida é o primeiro caso levado a teste contra o mínimo global.