60 mil pessoas e uma fronteira que fecha por briga de vizinho
O que a crise de Ceuta fez com a livre circulação na Europa, o que o veto americano a robôs humanoides faz com o varejo britânico e o que Pequim decidiu não fazer pelo consumo.
Cerca de 60 mil pessoas cruzaram a fronteira do Marrocos para Ceuta, o enclave espanhol no norte da África, com pelo menos 80 mortes, a maioria por afogamento (BBC). A Espanha mandou tropas e a maior parte acabou devolvida. O que interessa para quem vive entre países veio depois: a Itália suspendeu a livre circulação de Schengen com a Espanha, e a União Europeia convocou reunião de emergência.
Schengen, ou seja, o acordo que deixa você cruzar boa parte da Europa sem passar por controle de fronteira, já foi suspenso antes. Você deve estar pensando: suspenderam na pandemia e tudo voltou ao normal. Voltou mesmo. A diferença agora é o motivo, porque dessa vez a suspensão veio de uma desavença entre dois países do próprio bloco, não de uma emergência que era de todo mundo. Fronteira aberta virou decisão política, não infraestrutura.
A minha leitura é que choque migratório reprecifica risco político europeu mais rápido do que qualquer número fiscal. Funciona assim: governo pressionado passa a depender de coalizão mais dura, a coalizão muda gasto e discurso, quem empresta cobra mais caro do país que parece instável, e o juro a mais que a Itália paga em relação à Alemanha se mexe antes de qualquer revisão de orçamento. Quem guarda euro paga essa conta.
Washington vetou robôs humanoides de fabricação estrangeira por segurança nacional, segmento dominado por empresas chinesas. Faz sentido: ninguém quer câmera de procedência duvidosa circulando pelo galpão. Só que o galpão britânico já está cheio de robô chinês de armazém, dos mesmos fornecedores, cobrindo falta de mão de obra no varejo. Se Londres alinhar a regra à americana, o varejo perde o fornecedor mais barato, o custo de operar cada pedido sobe e isso sai da margem ou vai para o preço na prateleira.
Pequim, por sua vez, prometeu política fiscal e tributária mais ativa sem se comprometer com apoio ao consumo. Escolheu de novo o lado da oferta, isto é, crédito e capacidade instalada em vez do bolso das famílias. A demanda por commodity segue limitada, e a fábrica que não vende dentro da China vende fora mais barato, exportando para a Europa desinflação de bens, que é preço subindo menos e não preço caindo.
Se a livre circulação vira moeda de troca entre governos do mesmo bloco, quanto do seu plano de vida depende de uma fronteira que ninguém garante? A reunião da União Europeia mostra se a suspensão italiana foi exceção ou modelo.
Três votos por alta e um juro americano na máxima de 20 anos
O Fed manteve a taxa, mas três dirigentes votaram por aumento e o mercado saiu sem entender a estratégia, enquanto o banco central chinês abria uma porta em Hong Kong.
A segunda reunião de Kevin Warsh no comando do Fed manteve o juro parado, e o barulho veio da divergência: três dirigentes votaram por aumento, não por corte, com o discurso sobre inflação endurecendo (The New York Times). É o contrário do que o mercado passou dois anos ensaiando, e o juro do governo americano respondeu batendo a máxima de cerca de 20 anos.
Isso com a economia crescendo 1,5% no segundo trimestre, abaixo do esperado, e com parte dos indicadores de inflação até melhorando. Juro longo subindo enquanto a economia desacelera diz mais sobre desconfiança do que sobre crescimento.
Dissidência a favor de alta reprecifica todo carry trade financiado em dólar, que nada mais é do que tomar emprestado onde o juro é baixo para aplicar onde ele é alto. Se o custo do dinheiro tomado emprestado sobe, ou só ameaça subir, a conta encolhe, quem estava alavancado desmonta posição, e desmontar posição quer dizer vender o ativo do outro lado: moeda de emergente, bolsa, fundo alternativo, tudo junto.
Você deve estar pensando: juro americano alto é ótimo para quem guarda em dólar, onde está o problema? Está certo, e é justamente aí que dói. Quando o título mais seguro do mundo paga bem, ele suga capital de bolsa, de emergente e de alternativo ao mesmo tempo, porque ninguém precisa correr risco para ganhar. Se a sua vida acontece em mais de uma moeda, o mesmo número que te paga de um lado derruba preço do outro.
O investidor cobrou clareza sobre a estratégia anti-inflação e não recebeu (The Washington Post). Sem sinalização, o comprador de papel longo passa a exigir um prêmio a mais, que é o juro extra pedido só pela incerteza sobre o que vem depois.
Do outro lado, Pan Gongsheng, presidente do banco central chinês, anunciou novas medidas na cúpula do Bond Connect em Hong Kong, canal pelo qual o investidor institucional da China continental compra título em Hong Kong, com a cota anual subindo de 500 bilhões para 800 bilhões de yuans, e a autoridade monetária local (HKMA) já começou a implementar. O que eu estou acompanhando é se entra dinheiro de verdade ou se fica no anúncio.
A conta que você está fazendo é quanto do seu dinheiro aceita ficar parado sendo bem pago em dólar enquanto o resto da carteira paga por esse mesmo juro. Quem resolve isso não é o dado do mês, é o dia em que o Fed puser prazo e número na estratégia anti-inflação.
A semana que testa se foi episódio ou virada
Os próximos dados americanos, a reunião de emergência da União Europeia e a execução chinesa são os pontos que dizem se as decisões desta semana viram tendência.
Se você recebe numa moeda e gasta em outra, o item mais importante da semana que vem é um dado, não um discurso. Os próximos números de inflação e de emprego nos Estados Unidos definem se os três votos dissidentes foram exagero ou antecipação. Eu não trataria um dado fraco como alívio automático: com o juro longo já na máxima de duas décadas, o que importa é se ele cede quando vem notícia boa. Se não ceder, o assunto deixou de ser inflação e virou credibilidade, e credibilidade cara encarece o crédito de todo mundo, inclusive de governo europeu e de emergente.
Na Europa, a reunião de emergência da União Europeia trata do fluxo em Ceuta e, na prática, do que fazer com a suspensão italiana. Vale acompanhar se algum outro governo fala em copiar a medida, porque aí deixa de ser episódio.
Na China, o teste é de execução. A HKMA disse que vai implementar as medidas anunciadas por Pan Gongsheng, e implementação aparece em regra publicada e em volume negociado. Anúncio não é implementação. Fica pendente também a regulamentação do veto americano a robôs humanoides: se o texto atingir a cadeia de fornecimento dos aliados, o custo sobe fora dos Estados Unidos também.
Se Pequim seguir apoiando só o lado da oferta, o exportador de commodity fica sem gatilho de preço e a Europa continua importando bens baratos; se aparecer apoio ao consumo, a pressão volta para energia e metal. É nesse ponto que se decide se a sua exposição a emergente está barata por bom motivo ou por mau motivo.