Uma moeda sem saída, e o ouro contando a mesma história
Sobre a guerra no Irã virando disputa marítima em Ormuz, o colapso do rial e o ouro em máximas como duas versões do mesmo problema.
O dólar bateu recorde dentro do Irã nesta semana, e é a notícia mais reveladora dos últimos sete dias. Não porque o rial mexa com a sua carteira, e ele não mexe, mas porque mostra o que acontece com uma moeda quando ninguém consegue sair dela. Com bloqueio naval, ataques americanos entrando na segunda semana e mísseis atingindo navios-tanque dentro do Estreito de Ormuz, o iraniano comum não troca poupança por dólar no banco. Sobra o paralelo, e o preço do paralelo dispara. Moeda que você não consegue converter vira moeda presa, e presa é pior que fraca.
O ouro perto de US$ 4.100, cerca de um quarto abaixo do recorde de janeiro e com projeções de que dobre de preço em cinco anos, é a versão calma do mesmo movimento. Ninguém compra ouro pensando em joia. Compra-se proteção contra a perda de valor do dinheiro emitido por governos que gastam muito e brigam muito. E tem um detalhe que resume o assunto: a União Europeia acabou de proibir a importação de ouro do Sudão para cortar o dinheiro que financia a guerra de lá. O ativo mais neutro do mundo circula por rotas bem políticas.
Você deve estar pensando: guerra no Golfo eu já vi, o petróleo sobe, depois volta, e a minha vida segue. Faz sentido, e a inflação americana de junho até desacelerou porque a gasolina caiu durante a pausa nos combates. Mas o que pesa não é o barril de hoje. É o custo de seguro e de frete de tudo que passa por Ormuz e pelo Mar Vermelho, onde piratas tomaram o segundo navio-tanque em três meses na costa do Iêmen. Esse custo entra no preço final com meses de atraso e demora a sair. Em Portugal, diesel e gasolina já subiram nesta segunda-feira.
Minha leitura: o que está em jogo para você não é comprar ouro, é quanto do seu dinheiro está em moeda que dá para mover de país sem pedir licença. O que decide isso é se as rotas alternativas dos produtores do Golfo aguentam o volume sem o Estreito.
O núcleo teimoso mudou de endereço
Sobre a inflação americana de junho em 3,5%, o preço de software subindo em ritmo recorde e a primeira fala do novo presidente do Fed.
O preço que mais subiu nos Estados Unidos no último ano foi o de software, e ele passou despercebido dentro da boa notícia de junho. A inflação cheia, ou seja, o índice que junta tudo, do combustível ao aluguel, desacelerou para 3,5%, e o motivo foi a gasolina, que caiu durante a pausa nos combates com o Irã. Só que o custo de software teve alta recorde em 12 meses, e as empresas avisam que tarifas e energia mantêm a inflação elevada por anos. O núcleo teimoso mudou de endereço.
Vale acompanhar o raciocínio, porque ele não é óbvio. Treinar e rodar modelos de inteligência artificial (IA) exige data center, e data center significa energia cara e contrato de licença caro. Esse custo é fixo para quem compra, aparece em assinatura e em renovação de contrato, e serviço é a parte da inflação que mais demora a ceder. Serviço teimoso quer dizer juro alto por mais tempo. E juro alto nos Estados Unidos quer dizer capital parado em dólar rendendo bem com risco de crédito quase nulo, em vez de sair procurando risco em outros lugares.
No meio disso, o novo presidente do Fed, Warsh, deu o primeiro depoimento e repetiu o compromisso de derrubar a inflação sem dizer como. O Fed também divulgou as atas das reuniões de taxa de redesconto (o juro que o próprio banco central cobra dos bancos) de 8 e 17 de junho. Presidente de banco central pedindo sugestões sobre como baixar a inflação é uma cena que eu preferia encontrar em livro de história, não no noticiário da semana.
Você deve estar pensando: 3,5% é queda, por que complicar? Sim, é queda, e alivia. Mas o salário americano subiu 27 centavos por hora já em valores de hoje desde janeiro de 2025, ou seja, com a inflação descontada, e no último ano o salário médio por hora subiu 3,5% contra inflação de 3,5%, o que significa poder de compra parado, não maior.
O que eu estou acompanhando é a linha de serviços do próximo dado de inflação. Se você tem dinheiro em renda fixa curta (título que vence logo) apostando em corte de juros, é essa linha que decide a aposta, não a manchete.
Um voto de US$ 95 bilhões e o Estado de olho na fatia
O que acompanhar na próxima semana: a votação do orçamento de guerra nos Estados Unidos, o desdobramento político do ciclo de chips e os acordos que mudam onde dá para morar.
US$ 95 bilhões. É o tamanho do projeto de orçamento que a Câmara americana aprovou nesta quarta-feira, por 216 a 214, para financiar a campanha contra o Irã, socorrer os agricultores e bancar um fundo de US$ 10 bilhões ligado a mudanças na lei eleitoral, e que agora enfrenta ceticismo no Senado. Vale acompanhar a votação porque o desfecho define duas coisas ao mesmo tempo: quanta dívida nova o Tesouro americano vai emitir e quanta paciência política a guerra ainda tem. Se travar no Senado, a discussão sai do campo militar e vira briga fiscal.
Em paralelo, o ciclo dos chips segue dando números fortes. A TSMC teve lucro recorde, receita de junho 68% maior e elevou o compromisso de investimento nos Estados Unidos para US$ 265 bilhões, sendo US$ 100 bilhões novos. A ASML subiu a projeção do ano. Uma fabricante austríaca acumula alta de 459%. O que eu observo não é o lucro, é o que Washington faz com ele: a fiscalização dos modelos de IA deixou executivos preocupados com o passo seguinte, o governo pedindo participação acionária, como já vem fazendo em empresas privadas. O mês seguinte ao IPO da SpaceX entra na mesma conta.
E tem a parte pequena que muda a vida de quem vive entre países. O Reino Unido fechou um acordo de serviços com a Suíça que acaba com a cobrança de roaming e libera o acesso de britânicos aos portões automáticos de imigração. Gibraltar derrubou 118 anos de controle de fronteira com a Espanha. Eu não trataria isso como nota de rodapé: conta de celular e fila de aeroporto parecem detalhe até você somar o ano inteiro.
Se a fiscalização dos modelos virar pedido de participação do governo, o que define a sua exposição a IA deixa de ser a execução das empresas e passa a ser a vontade de quem manda em Washington. Se não virar, o ciclo segue como está: caro, lucrativo e concentrado.