Lucro recorde não foi suficiente
Uma fabricante de chips coreana levantou uma cifra recorde em Nova York enquanto a vizinha perdeu mais de US$ 100 bilhões apesar do lucro recorde, e fundos americanos saíram às compras na Europa.
A SK Hynix vendeu US$ 26,5 bilhões em ações nos Estados Unidos nesta semana e já vale mais de US$ 1 trilhão. A vizinha e rival Samsung divulgou lucro recorde puxado pela demanda de inteligência artificial e, ainda assim, perdeu mais de US$ 100 bilhões de valor de mercado. Mesmo país, mesmo ciclo, veredictos opostos.
Você deve estar pensando: não tenho ação de fabricante de chip coreano, então como isso me afeta? Porque essa dupla diz muito sobre o preço de todo o resto. Lucro recorde não salvou a Samsung. O rótulo de inteligência artificial deixou de bastar: o mercado está pagando pelo elo escasso da cadeia e por quase nada além disso. Minha leitura é que o ciclo entrou na fase de separar vencedores, e faz isso sem sentimentalismo.
Repare também onde a SK Hynix foi buscar o dinheiro: Estados Unidos, não Seul. Mercado líquido é mercado barato, então as empresas levantam capital onde o capital já está. E a Coreia do Sul está direcionando a arrecadação extra do ciclo de chips para habitação e emprego, ou seja, um governo que decidiu que esse dinheiro é real o bastante para ser gasto.
O outro movimento da semana foi na direção contrária. A Apollo, um fundo de private equity (compra empresas inteiras, não fatias delas), superou a Castlelake com uma oferta de £ 5,7 bilhões pela easyJet, cujo conselho já tinha apoiado a proposta anterior e cujas ações subiram cerca de 14% com ela. A Sky fechou a compra do braço de mídia e entretenimento da ITV por até £ 1,6 bilhão. E a Euronews calcula que a França cria um novo milionário a cada 15 minutos. A Europa fica mais rica no papel enquanto suas empresas listadas são compradas por inteiro, e um dólar mais fraco encarece esses ativos para o comprador americano, não o contrário. Eles estão comprando mesmo assim.
Então qual preço está falando a verdade: o que o mercado paga pela parte escassa do ciclo, ou o que um fundo paga em dinheiro por uma companhia aérea sem glamour? A resposta depende de a próxima safra de resultados dos fabricantes de chip conseguir, enfim, levar a ação na mesma direção do lucro.
Os reguladores foram atrás da nuvem
Supervisores em Londres e Frankfurt decidiram fiscalizar os fornecedores de tecnologia dos quais o sistema bancário depende, enquanto o Federal Reserve revisa o próprio manual e o Japão segue alimentando os dados da normalização.
Os reguladores britânicos acabam de assumir poder sobre empresas que não são bancos. Pelo regime anunciado pelo Tesouro do Reino Unido, o Banco da Inglaterra e os demais supervisores vão passar a fiscalizar os Critical Third Parties, nome oficial para o pequeno grupo de empresas de cloud, dados e software das quais o sistema financeiro inteiro depende hoje. Três dias antes, o Banco Central Europeu mandou os maiores bancos da zona do euro se prepararem para ataques cibernéticos turbinados por inteligência artificial.
Coloque as duas coisas lado a lado e você tem a mensagem mais clara que um banco central deu na semana. Desde a crise financeira, a resposta ao risco sistêmico foi capital: obrigar cada banco a manter um colchão de capital maior para absorver perdas. Só que colchão nenhum resolve quando a falha chega por um fornecedor que 30 bancos usam ao mesmo tempo. Uma pane ali são 30 panes de uma vez, e capital nenhum garante a liquidação da sua transferência.
Você deve estar pensando: isso é regra de tecnologia, e meu banco nem é britânico. Faz sentido, e a supervisão em si vai ser sem graça de acompanhar. O que chega até você é outra coisa: a infraestrutura por onde o seu dinheiro cruza fronteiras passou a ser tratada oficialmente como um lugar onde a crise pode começar. Supervisionar esses fornecedores encarece o serviço, o custo cai no colo dos bancos que os usam, e os bancos pequenos são os que não conseguem carregar essa conta.
A parte monetária foi mais silenciosa. O Federal Reserve publicou a ata da reunião de junho e anunciou a liderança e os objetivos de forças-tarefa sobre como conduz a política monetária. Quando um banco central revisa o próprio manual, ele está dizendo que o manual atual não serve para o mundo que ele espera.
E o Japão seguiu alimentando a máquina: o índice de preços ao produtor de junho, que nada mais é do que o que as empresas cobram umas das outras muito antes de qualquer coisa chegar à prateleira, mais os dados de base monetária. São os insumos da normalização. Pegar dinheiro barato num lugar e aplicar onde paga mais: isso é o carry, e o iene é o lado barato dessa conta há anos. Desmontar a posição significa vender os ativos lá fora para recomprar iene, e o que sai primeiro é o menos líquido: moedas e títulos de países emergentes.
A pergunta escondida em tudo isso é quanto do juro extra que você ganha fora está sendo bancado pelo iene barato de outra pessoa. Os preços ao produtor no Japão é que decidem isso, e eles não vão esperar a próxima reunião do Fed.
De quem é o caminho do seu dinheiro
O que acompanhar a seguir: a rodada final do euro digital, uma disputa aberta pela easyJet, a pressão judicial sobre Rotterdam e a abertura da temporada de resultados nos Estados Unidos.
A zona do euro entra na rodada final de negociação do euro digital, e Christine Lagarde passou a semana repetindo que ele não vai substituir o dinheiro em espécie. Parece detalhe técnico. O que está sendo decidido naquela sala é de quem é o caminho por onde o seu dinheiro anda quando cruza uma fronteira: um sistema público operado pelo Banco Central Europeu, ou as redes de cartão e os aplicativos privados que ficam com um pedacinho de cada transação, sempre.
Em paralelo, a União Europeia sinalizou que vai reescrever suas regras de cripto em 2027, enquanto Washington aposta pesado em ativos digitais. Nos próximos anos, portanto, a Europa decide se a infraestrutura de pagamento dela é pública, privada, ou silenciosamente denominada em dólar via stablecoins, que são tokens digitais criados para valer sempre o mesmo em relação a uma moeda, quase sempre o dólar.
Outras três coisas para acompanhar. A disputa pela easyJet: a oferta de £ 5,7 bilhões da Apollo está na mesa, diante de um conselho que já tinha apoiado a Castlelake, e a volta (ou o silêncio) da Castlelake mostra o quanto os ativos europeus estão baratos de verdade. Rotterdam, o maior porto da Europa, está sob pressão judicial e política para descarbonizar mais rápido, e quando um tribunal põe preço nas emissões de uma infraestrutura desse tamanho, a conta reaparece no frete e depois no preço das coisas. E a temporada de resultados do segundo trimestre abre nos Estados Unidos, onde o setor de chips precisa provar que lucro recorde consegue mover a ação.
Se o euro digital sair como algo que as pessoas de fato usam, o custo de mover dinheiro dentro da Europa cai e as redes de cartão perdem um pedágio. Se sair como uma promessa de que nada muda, as stablecoins em dólar seguem crescendo nesse espaço vazio. Se você vai continuar pagando esse pedágio por mais uma década é coisa que se decide numa mesa de negociação, não no mercado.